Monday, June 29, 2009

W.


"W." é o longa mais bem executado da carreira recente de Oliver Stone e o mais incrível é que o projeto inspirava mais uma obra mal sucedida de um diretor que nos últimos anos acabou se acostumando com as duras crísticas que recebeu a projetos irregulares como "Alexandre" ou "As Torres Gêmeas". "W." é mais uma biografia dirigida pelo cineasta e conta com o requinte da comédia sutil espalhada pelos diversos diálogos do roteiro, pela direção inspirada de Stone e pelo desempenho fabuloso de atores como o protagonista Josh Brolin. Oliver Stone traz uma obra surpreendentemente interessante filmada em um período recorde de tempo e com uma proposta que por diversas vezes foi posta em dúvida. O resultado? Bem melhor do que o esperado.
O roteiro de Stanley Weiser é certeiro em seus diálogos e extremamente contundente nas escolhas dos momentos da vida de George W. Bush a serem retratados na cinebiografia. A utilização de flashbacks em momento algum parece cansativa, pelo contrário consegue estabelecer uma relação interessante com os fatos mais atuais, e os diálogos não soam artificiais, erro que poderia ser concretizado em uma obra como esta, cujo biografado ainda está vivo e tão presente no cenário atual. Se o roteiro é inteligente em seus diálogos, Oliver Stone se aproveita do material que tem em mãos e oferece uma direção ácida e extremamente crítica em sutilezas, a câmera de Stone é irônica e o cineasta soube conduzir seu elenco no tom correto, dando ao mesmo tempo seriedade e humor, aspectos dosados sabiamente pelo cineasta em uma combinação deliciosa de ser assistida.
Também é impecável o trabalho realizado na caracterização do elenco, importantíssimo em virtude da contemporaneidade do tema retratado. Josh Brolin não só está parecido fisicamente com George W. Bush, como também personifica o ex-presidente dos EUA em uma composição minunciosa que pega não só os trejeitos de Bush como também toda a trajetória psicológica de um homem de poucas habilidades, beberrão e assombrado pela figura de seu pai. James Cromwell e Ellen Burstyn são outros destaques do elenco como o casal Bush, pai de W., outra grande presença no filme é Elizabeth Banks interpretando Laura Bush. Infelizmente o elenco possui uma grande falha, a equivocada interpretação de Thandie Newton como Condolezza Rice, Newton distoa por completo do tom do filme e entrega uma performance constrangedora.
"W." possui uma visão ácida, porém humana, de uma das figuras mais equivocadas da história norte-americana. O longa retrata como um homem nada brilhante como Bush conseguiu chegar à presidência de uma das maiores potências do mundo. O novo filme de Oliver Stone, torna-se o mais contundente do diretor nos últimos tempos através da ironia que emprega e da crítica sutil presente em cada evento protagonizado por George W. Bush.
Nota: 8,0
Título original: W.
Ano da produção: 2008
Distribuição/Estúdio: MGM
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Stanley Weiser
Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Banks, James Cromwell, Ellen Burstyn, Toby Jones, Colin Hanks, Thandie Newton, Jeffrey Wright, Richard Dreyfuss, Scott Glenn, Bruce McGill, Jesse Bradford, Noah Wyle, Ioan Gruffud.

Transformers - A Vingança dos Derrotados

Interminável. Esta é a sensação que tive quando assisti por "dever" a "Transformers - A Vingança dos Derrotados". Acredito que longas que tenham mais de duas horas de duração podem ser agradáveis e o tempo pode passar com rapidez mesmo que tenha mais de três horas de duração, desde que tenha material suficiente para tanto e que o diretor seja um hábil contador de histórias. Esta é a diferença de diretores como Martin Scorsese, Peter Jackson, Christopher Nolan e Steven Spielberg para um cineasta como Michael Bay, e é isto que faz de "Transformers - A Vingança dos Derrotados" uma viagem cansativa, que beira o insuportável.
Não consigo encontrar atrativos nesta série cinematográfica, acho sua trama fraca, seus personagens patéticos e a única qualidade do primeiro longa e, certamente, desta continuação, são os impecáveis aspectos técnicos do longa, sobretudo os efeitos especiais e o som empregado no longa, mas como sabemos estes não sustentam um filme por si só, é preciso que a história seja envolvente, que os personagens sejam interessantes e que o diretor saiba contar sua história. O roteiro de Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman é tão pobre que é capaz de criar diálogos entre os 'transformers' em combate que parecem ser ditos por crianças de 7 ou 8 anos brincando com seus bonecos do 'Comandos em Ação'. Além disso os roteiristas acentuam situações cômicas inapropriadas e repetitivas e não chegam a melhorar as características e propósitos dos personagens, grande falha do primeiro filme. Como diretor, Michael Bay é um exímio coordenador de sequências que envolvem efeitos especiais, mas a excelência de seu trabalho se resume a isto e todas as marcas irritantes de seus trabalhos anteriores estão lá.
É uma benção para Bay ter seu elenco encabeçado por Shia LaBeouf, um ator que consegue transmitir credibilidade a qualquer projeto que participe e que possui um inegável carisma entre as platéias, encobrindo boa parte das falhas do roteiro. Megan Fox está e é linda em "Transformers - A Vingança dos Derrotados", mas ainda deixa muito a desejar como atriz, o que acredito que seja uma falha das orientações dadas pelo diretor, que insiste que ela faça caras e bocas ao invés de transmitir sensualidade com mais naturalidade. John Turturro surge como uma benção para o filme, inspiradíssimo em um papel que tem sua presença aumentada nesta continuação.
Apesar dos incríveis efeitos especiais e da excelente qualidade do som do longa, "Transformers - A Vingança dos Derrotados" é um filme com narrativa frouxa e que é extremamente cansativo. A única melhora perceptível neste segundo filme é que algumas máquinas tiveram suas personalidades mais bem definidas gerando momentos de genuína diversão, mas o restante é absolutamente insuportável, chega uma hora que toda a ação cansa e não vemos a hora do filme terminar.
Nota: 4,0Título original: Transformers - Revenge of the Fallen
Ano da produção: 2009
Estúdio/Distribuidora: DreamWorks
Direção: Michael Bay
Roteiro: Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, John Turturro, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, Ramon Rodriguez, Kevin Dunn, Julie White, Isabel Lucas, John Benjamin Hickey, Matthew Marsden, Andrew Howard, Erin Naas.

Saturday, June 27, 2009

Jean Charles

O grande acerto de "Jean Charles" de Henrique Goldman é acreditar que sua história é muito mais do que uma simples biografia, um longa baseado em fatos reais. O filme de Goldman trata da vida repleta de dificuldade dos imigrantes brasileiros, em especial aqueles que estão ilegais em terras estrangeiras com o propósito de juntar dinheiro para melhorar suas vidas e a de seus familiares, já que nosso país não consegue ser uma terra de grandes possibilidades para seus "filhos". Qualquer um de nós já conheceu ou conhece alguém como Jean ou como sua prima Vivian e faz idéia das dificuldades de lutar por uma vida melhor fora do país, seja de que forma for. Esse conexão emocional que "Jean Charles" cria de imediato com o público faz do filme um longa espontaneamente emocionante.
Henrique Goldman e Marcelo Starobinas fazem um trabalho simples em seu roteiro, estabelecendo constantemente um paralelo da vida de Jean Charles em Londres com a onda de atentados terroristas e a reação dos ingleses aos mesmos. Existem duas grandes qualidades no roteiro de Goldman e Starobinas: a primeira delas é que o trabalho dos dois consegue nos mostrar como Jean e seus primos estavam "alheios" a tudo o que estava ocorrendo, ajudando a fortificar a incompreensão que temos sobre a atitude da polícia londrina, a segunda característica fantástica do trabalho dos dois é que os roteiristas conseguiram criar uma história emocionalmente honesta, ou seja, nos emocionamos com a trama sem sentirmos que estamos sendo induzidos a tanto.
O trabalho de Goldman na direção é igualmente rico e singelo, principalmente com seus atores. Selton Mello comprova mais uma vez que é um dos maiores orgulhos de nosso país dentre sua geração, um ator como poucos. Mello consegue compor uma figura comum, extremamente carismático e cheio de vida. O ator também consegue compreender todas as emoções do personagem com sensibilidade incomum, uma das maiores provas disto está na cena em que Jean liga de Londres para sua mãe, demonstrando em uma cena teoricamente simples a saudade que o personagem sentia de casa, a falta que sentia de seus pais e ao mesmo tempo um receio em demonstrar para os mesmos a fragilidade do momento que estava passando, enfim mais um trabalho brilhante de Selton Mello. O ator não está sozinho já que Vanessa Giácomo e Luis Miranda estão explêndidos como a prima e um dos melhores amigos de Jean (a cena da notícia do falecimento de Jean é prova disso).
Henrique Goldman faz de "Jean Charles" um filme simples e emocionante, um longa de narrativa universal que consegue abordar muito mais do que a trajetória de um único homem. Através da vida de Jean em Londres, a vida de milhares de brasileiros é contada e os problemas de nosso país e as consequências de uma política internacional equivocada são expostas para a reflexão. Certamente, "Jean Charles" é um dos trabalhos mais bonitos do ano.

Nota: 9,0
Título original: Jean Charles Ano da produção: 2009
Estúdio/Distribuidora: Imagem Filmes
Direção: Henrique Goldman
Roteiro: Henrique Goldman e Marcelo Starobinas
Elenco: Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luis Miranda, Patricia Armani, Renu Setna, Marek Oravek, Julian Harries, Roberta Gotti, Ewan Ross, Bruno Bilotta, David Blakeley, Craig Henderson.

Farrah Fawcet (1947-2009)

Duas "cacetadas" no mesmo dia.
Exatamente na mesma data da morte de Michael Jackson, a eterna "pantera", Farrah Fawcet, perde sua batalha contra o câncer e nos dá adeus.
Minha geração não acompanhou o auge da carreira de Fawcet, mas certamente já ouviu falar da beleza estonteante da atriz e de sua marca registrada, copiada por muitas na década de 70.

Friday, June 26, 2009

Michael Jackson (1958 - 2009)

Uma das coisas que mais abomino nas coberturas jornalísticas sobre mortes de celebridades é essa gana dos veículos especializados em cima das causas do falecimento dos artistas. Tudo seria considerado razoável se a causa fosse apenas detectada e noticiada como qualquer outra informação, mas as inúmeras especulações que colocam em cheque a vida pessoal dos artistas causam vergonha a quem assiste por percebermos que em um momento de completa dor a mídia ainda encontra tempo para se preocupar com bizarrices, tripudiando das dores pessoais e particularidades de uma família. Seja qual for a causa ou quem quer que tenha sido a figura de Michael Jackson em sua vida privada me interessa muito pouco diante do precioso legado deixado pelo artista Jackson. Em nome de seu trabalho Jackson se tornou uma figura pública, e por isso mesmo acredito que esta deva ser exaltado e lembrado eternamente.
E para quem se perguntar por que a morte de uma figura eminentemente da música está sendo lembrada em uma página destinada exclusivamente ao cinema, certamente não tem dimensão da importância de Michael Jackson para o videoclipe e para a linguagem inaugurada por Jackson para este tipo de mídia, estritamente publicitária até o fenômeno "Thriller". Com este clipe, Jackson uniu o cinema e a música em uma única mídia e criou uma legião de seguidores, sendo citado como percussor na área, pode ter certeza que tudo o que foi produzido desde então visava aperfeiçoar a técnica e superar a inovação realizada por Jackson, que buscava muito mais que a simples reprodução da música em imagens, buscava imprimir uma linguagem, uma narrativa em seu videoclipe.
Desde então Jackson trabalhou com cineastas do calibre de Martin Scorsese e Spike Lee, com este último filmando um clipe no Brasil.
Michael Jackson é aquele tipo de artista cuja obra e contribuição para a música e para as outras áreas artisticas dos EUA será lembrada para sempre, um artista que passou para a condição de ícone assim como figuras como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain, Janis Joplin, Marilyn Monroe...
Que Michael enfim descanse em paz.

"Thriller" de John Landis

"Bad" de Martin Scorsese
"They don't care about us" de Spike Lee

Wednesday, June 24, 2009

10 indicados!

A Academia de Cinema de Hollywood acaba de divulgar uma informação bombástica para a próxima cerimônia do Oscar: desta vez serão 10 os longas indicados na categoria Melhor Filme! Isso mesmo, 10 filmes serão indicados a categoria principal do Oscar!
Não é situação inédita na história da premiação já que durante a década de 40, a Academia indicava dez longas, prática que foi abolida desde então.
O fato é que se por um lado a novidade permitirá que as injustiças sejam sanadas, como foi o caso do ano passado quando ficaram de fora da festa filmes aplaudidíssimos como "Batman - O Cavaleiro das Trevas" ou "Wall-E", por outro permite que possam surgir na categoria filmes inexpressivos na história do cinema. Também concluímos que as injustiças passadas não poderão ser reparadas em virtude do tempo...
Enfim, é uma decisão que promete abalar as estruturas dos estúdios e de muitos cineastas que veem suas chances ampliarem na edição de 2010 do Oscar.
O fato é que a lista de filmes indicados no ano passado foi tão inexpressiva e a audiência do Oscar anda tão em baixa que a solução é ampliar o leque de opções.
P.S.: Com tudo isso poderemos ver improváveis candidatos surgirem na categoria. Minha primeira aposta é a nova animação da Pixar, "Up".

Monday, June 22, 2009

Tinha que ser você

Apesar de todos os defeitos evidenciados pelo seu roteiro, "Tinha que ser você" consegue se sustentar pela reunião de atores formidáveis, e não estou me referindo somente a seus protagonistas. O longa é uma comédia romântica encabeçada por um casal maduro, coisa rara na Hollywood contemporânea cada vez mais interessada no sex appeal da juventude. De qualquer maneira o filme é um sopro de esperança por mostrar que ainda há espaço para atores inegavelmente talentosos como Dustin Hoffman e Emma Thompson, que não merecem ser relegados unicamente a participações especiais.
Desde o primeiro momento percebemos que o roteiro de Joel Hopkins cria situações e perfis artificiais para seus personagens, cada movimento e acontecimento no filme pode soar deslocado e pouco convincente por reproduzir sem filtragem elementos que pareceriam corretos a toda e qualquer comédia romântica, o que percebemos é que na tela esses momentos surgem de maneira estranha, é o caso por exemplo do súbito interesse do personagem de Hoffman pela de Thompson em um restaurante do aeroporto londrino. A direção de Hopkins também cai em clichês pelo convencionalismo de sua condução e até mesmo pela escolha de uma trilha sonora pouco inspirada.
Como mencionei, graças ao elenco esses equívocos são aliviados, já que nos deparamos diante da credibilidade conferida em cada linha do texto pelos mesmos. Dustin Hoffman interpreta um homem que ao longo do filme percebe que cometeu erros na vida, sobretudo no relacionamento com sua filha, o ator demonstra vigor e carisma como protagonista desta produção. Emma Thompson está incrível, o melhor desempenho do longa diga-se de passagem, a atriz interpreta uma mulher madura pressionada pela sociedade, e por ela mesma, para encontrar opar ideal, a personagem enfrenta as dificuldades e a ansiedade desta busca. No elenco de coadjuvantes estão as formidáveis Eileen Atkins e Kathy Baker, o que confere um charme a mais a "Tinha que ser você".
Mais uma vez uma produção que aposta na experiência e no talento de atores consagrados e maduros demonstra o quão incríveis e produtivos estes atores podem ser, já que mesmo diante de um texto com evidentes falhas, conseguem dar a volta por cima e cativar o público com suas interpretações. O filme pertence a harmônica parceria de Dustin Hoffman e Emma Thompson, atores que precisam encabeçar mais produções, que precisam de mais oportunidades no cinema.
Nota: 7,5
Título original: Last chance Harvey
Ano da produção: 2008
Estúdio/Distribuidora: Imagem Filmes
Direção: Joel Hopkins
Roteiro: Joel Hopkins
Elenco: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkins, Kathy Baker, Liane Balaban, James Brolin, Richard Schiff, Tim Howar, Wendy Mae Brown, Bronagh Gallagher, Jeremy Scheffield, Daniel Lapaine, Patrick Baladi, Adam James, Michael Landes.

Saturday, June 20, 2009

Nicole Kidman! Happy Birthday!

Este blog não seria o Espaço Lumière se não lembrasse de sua musa maior nesta data. Hoje a atriz australiana Nicole Kidman está completando 42 anos de vida.
Esta fase da carreira da atriz pode não ser tão inspirada artisticamente quanto foi a casa dos 30 para Nicole, porém Kidman está, como sempre, empenhada em descobrir novas possibilidades no meio, apostando na carreira de produtora com o primeiro lançamento de sua recém criada produtora, o drama independente "Rabbit Hole" de John Cameron Mitchell. Além de produzir, Nicole viverá a personagem principal deste filme, baseado em uma premiada peça da Broadway.
Nicole está priorizando sua vida pessoal nos últimos anos, prova disso é o afastamento da atriz de longas que qualquer atriz daria um braço para participar, os filmes em questão são "O Leitor" e o próximo projeto do cineasta Woody Allen. Em ambos a atriz teve que ser substituída já que não conseguiria conciliar as gravações com os cuidados que sua primeira filha biológica precisaria. A participação de Kidman no musical "Nine" também é reflexo dessa nova postura da atriz, já que divide a cena com outras estrelas e não carrega o peso da responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de um filme nas costas.
Gostando ou não gostando de Nicole Kidman não há como negar que a australiana será eternamente lembrada como uma das grandes estrelas do cinema de sua geração. Sempre lembraremos de sua aparição no trapézio em "Moulin Rouge", de sua nudez estonteante filmada por Stanley Kubrick em "De Olhos bem Fechados" e de seu retrato profundamente melancólico da escritora Virginia Woolf em "As Horas". Tal qual Grace Kelly ou Katherine Hepburn, Nicole demonstra sofisticação, talento e inteligência que fazem dela uma das mulheres mais importantes e influentes em Hollywood. Veremos o que ela ainda tem a nos mostrar...

Trama Internacional

Assim como o recente "Anjos e Demônios", "Trama Internacional" apresenta uma narrativa apoiada em uma grande teoria conspiratória. O que torna este filme bem mais bem sucedido que o massante longa de Ron Howard é que a abordagem é mais contundente e desenvolvida com coerência. Exageros a parte, "Trama Internacional" se apóia em um universo muito mais convincente do que os questionamentos religiosos de Dan Brown e apresenta um roteiro interessante, que apesar de deixar a desejar no desenvolvimento de seus personagens, não esquece de inserir uma mínima dose que seja de humanidade a eles, o que praticamente inexiste no material da série de Ron Howard, que tem proposta semelhante a deste longa.
Como citei na introdução, o roteiro de Eric Singer é excelente na engenhosidade de sua trama investigativa, mas peca por não adentrar no íntimo de suas personagens. Em "Trama Internacional" sabemos que seres humanos estão sendo retratados, que existem emoções profundas por trás de seus propósitos e reações, mas tal abordagem é evitada pelo roteiro, o que incomoda e não deixa de interferir na credibilidade do filme. Ao menos, "Trama Internacional" não cai na armadilha de anular a humanidade de seus protagonistas como acontece em filmes do gênero. Já a direção de Tom Tykwer é irretocável, um exemplo a ser seguido para muitos que caem no lugar comum quando põem as mãos em um material deste tipo. Tykwer consegue criar o clima conspiratório apropriado em cada decisão que toma por trás das câmeras, existem duas sequências fabulosas no longa, onde o diretor demonstra sua segurança na condução de um filme: a primeira é o eletrizante tiroteio no museu Guggenheim em Nova York e a segunda segue um carro que subitamente desaparece quando passa por um túnel.
Clive Owen serve muito bem a este tipo de longa e em "Trama Internacional" não poderia ser diferente, o ator está excelente na pele de um homem obstinado a desmascarar toda a trama envolvendo um grande banco internacional e o financiamento que este faz ao crime organizado em várias partes do mundo. Naomi Watts, apesar de não ter muito subsídio para a construção de um personagem mais denso, está fabulosa no longa e protagoniza uma das cenas mais comoventes ao lado de Clive Owen, a última cena da atriz no filme. Não existe nenhuma performance arrebatadora, nenhuma composição complexa digna de prêmios, mas a escolha dos atores foi essencial, principalmente Owe e Watts que dão credibilidade plena às situações que vivem em cena.
"Trama Internacional" sofre do grande mal de acreditar que trama a ser desvendada deve ser priorizada e o aprofundamento de seus personagens é acessório, uma verdadeiro equívoco já que somente desvendando os fantasmas escondidos dos personagens compreendemos os propósitos de seus envolvimentos com uma trama tão arriscada e podemos nos conectar, nos importar, com as ações dos mesmos em cena. Apesar dos defeitos, "Trama Internacional" comprovam que Tom Tykwer é um excelente diretor, que Clive Owen e Naomi Watts são atores completos e conseguem sustentar qualquer produção e que uma trama conspiratória pode ser tema de um filme sem parecer ridícula o suficiente para fazer com que o filme entre em descrédito.
Nota: 7,5
Título original: The International
Ano da produção: 2009
Estúdio/Distribuidora: Columbia
Direção: Tom Tykwer
Roteiro: Eric Singer
Elenco: Clive Owen, Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl, Ulrich Thomsen, Brian F. O'Byrne, Michell Voletti, Patrick Baladi, Jay Villiers, Fabrice Scott, Haluk Bilginer, Luca Barbareschi, Alessandro Fabrizi, Felix Solis, Jack McGee.

Sunday, June 14, 2009

Rio Congelado

A vida de duas mullheres sofridas em virtude das dificuldades que enfrentam para dar um futuro melhor para seus filhos é o tema pilar de `Rio Congelado`, drama independente que conquistou a atenção especial do público quando foi indicado a duas estatuetas do Oscar deste ano, uma para o roteiro original, trabalho da estreante Courtney Hunt, e outra para atriz, pelo desempenho triunfante de Melissa Leo, que finalmente consegue o reconhecimento merecido após anos de carreira. `Rio Congelado´ é um longa cuja força narrativa encontra-se na simplicidade de seus propósitos, assim como ´O Lutador´, o filme de Courtney Hunt se propõe a contar a história de um protagonista humano, repleto de dramas e que consegue encontrar forças para sobreviver diante de tantas adversidades, ou seja um tema universal que encontra diálogo constante com o espectador.
A direção de Courtney Hunt mostra-se segura e sensível o suficiente para suprir as eventuais falhas do roteiro, que não são muitas, mas que existem, sem comprometer substancialmente o trabalho final. Hunt desenvolve seu trabalho em torno das personagens centrais de maneira tão intensa e emocionalmente envolvente que esquecemos se os acontecimentos da trama acontecem previsivelmente ou não. O trabalho realizado pela cineasta com seus atores é surpreendente pela delicadeza e complexidade emocional. O roteiro de Courtney possui inúmeras qualidades, como por exemplo dar o desfecho adequado para cada problemática exposta ao longo da narrativa ou por desenvolver com harmonia e naturalidade a sequência de acontecimentos do filme.
É óbvio que sendo um filme de personagens os desempenhos de seus atores são cruciais para o resultado do longa. Melissa Leo apresenta um trabalho espetacular compondo uma personagem sofrida, mas que possui um instinto de sobrevivência comovente. O trabalho de Leo neste filme é simples e discreto, porém poderoso em sua carga emocional. Melissa interpreta uma mulher que apesar da dureza imposta pela vida ainda encontra espaço para afeto e solidariedade, demonstrados através de seu relacionamento com seus filhos e com a amizade que cria ao longo do filme com Lila, personagem de Misty Upham, também excelente. Outra participação de destaque no drama independente é a de Charlie McDermott, filho mais velho da personagem de Leo.
O mais importante em ´Rio Congelado´, mais importante inclusive do que a discussão acerca da imigração clandestina para os EUA através da fronteira com o Canadá, são as variadas situações enfrentadas pela personagem principal e como apesar das dificuldades, dos duros golpes que a vida lhe deu, Ray Eddy consegue manter-se humana e evitar utilizar suas agruras para agir com egoísmo. É uma prática difícil e que requer tempo, maturidade e desapego, porém perfeitamente viável. ´Rio Congelado´é um filme simples, denso emocionalmente e irremediavelmente envolvente pelos dramas apresentados durante sua narrativa, histórias que dialogam com nossas vidas e com nossas batalhas diárias.
Nota: 9,0
Título original: Frozen River
Ano da produção: 2008
Estúdio - Distribuidora: Sony Classic Pictures - Imagem Filmes
Direção: Courtney Hunt
Roteiro: Courtney Hunt
Elenco: Melissa Leo, Misty Upham, Charlei McDermott, Michael O´Keefe, Mark Boone Jr., James Reilly, Jay Klaitz, John Canoe, Dylan Carusona, Michael Sky, Gargi Shinde, Rajesh Bose, Jack Phillips, James Phillips.